“Temos de educar nossos filhos para saber que as coisas não são de graça”

Por Marina Dias

O especialista em ciência de dados diz por que não temos tido sucesso em educar as novas gerações quanto a ética e tecnologias

Vivemos em uma época quando dados são mais valiosos que petróleo. O seu caminho de casa para o trabalho, a foto do jantar de ontem, a escolha de clicar em um anúncio que apareceu na sua rede social. Tudo é informação que pode ser aproveitada.
Algumas são mais diretas, de leitura imediata e processamento rápido. Outras são mais sutis, requerem interpretação de sentimentos, intenções. Mas, até isso as máquinas estão aprendendo a fazer. É nesse contexto de inteligência artificial que as gerações mais jovens vão crescer. Por isso, no caminho a ser percorrido por eles até a idade adulta, é preciso que sejam ensinados tanto sobre as ferramentas como sobre ética e limites. Uma das pessoas engajadas nessa tarefa é o professor e pesquisador francês Thierry Warin, especialista em Ciência de Dados para Negócios Internacionais. Diretor do Laboratório Global de Inteligência Aumentada da faculdade internacional de administração Skema Business School, que tem o campus brasileiro em BH, ele esteve aqui para o seminário o “A Inteligência Aumentada e o Futuro da Educação”, no ?m de outubro.

Em sua palestra, afirmou: “Esse é o`ano zero’ para a humanidade. Não estamos falando de robôs, automóveis ou máquinas, mas sim de 7 bilhões de seres humanos produzindo todos os dias uma quantidade incalculável de informações, que são muito importantes
para o sistema financeiro, para o marketing, para as decisões governamentais e muito mais”. E garantiu que a inteligência artificial é uma ferramenta poderosa, mas também muito perigosa. Na ocasião, conversou com Encontro.

Confira os principais trechos:

 
1 | ENCONTRO – Pode fazer um breve histórico da tecnologia com a qual estamos lidando, hoje?

THIERRY WARIN – Quando eu tinha 12 anos, nos anos 1980, ganhei meu primeiro computador, o Commodore 64. A única coisa que você podia fazer era comprar uma revista que vinha com códigos prontos e programar a partir deles. Nessa época, a
próxima etapa desejada era: e se pudéssemos conectar computadores? Primeiro, passou a ser possível trocar informações via discos. Nos anos 1990, a internet chegou de forma mais ampla, e aí era possível trocar informações a partir de novos padrões (foi quando surgiu o Netscape, entre outros browsers pioneiros). E então, nos anos 2000, a questão era outra: força computacional para atingir o potencial que as conexões permitem. E isso foi possível com o cloud computing, com a maior capacidade de armazenar os dados. Havia tanta, mas tanta informação, que não era possível tratá-la. Entra a matemática, os
algoritmos, e vem a inteligência artificial (IA). Isso demorou 20 anos. Estamos em um ponto impressionante – e a computação quântica, que será outra fase, está logo ali na esquina.

Sempre que se fala de inteligência artificial, as pessoas pensam em como os veículos autônomos podem ajudar, como máquinas de raio-x serão melhores, ou seja, IA para máquinas, em um modo operacional, e não diretamente para pessoas. Eu, quando falo
em inteligência aumentada, falo de dados gerados por indivíduos, e o uso da IA para melhorar a análise da informação gerada pela sociedade, inclusive a partir de textos postados em redes sociais, de fotos, etc. Há ferramentas que devem ser capazes de
identificar emoções humanas, de interpretar discursos e imagens postados.

2 | Em que momento nos encontramos, em termos de inteligência artificial?

O conceito foi cunhado por John McCarthy, em 1956, então, o conceito é antigo, mas passou por múltiplas fases. Hoje, aplicamos em como refinar máquinas e, no ramo com que eu trabalho, temos a possibilidade de usar essas técnicas para refinar a forma como lidamos com informação na sociedade, para nos beneficiar das informações que criamos. Isso porque a IA, nesse sentido, pode nos ajudar a tomar decisões mais bem informadas, o que pode significar economia não só de dinheiro, mas também de tempo.

3 | Por que diz que já usamos mais IA na vida pessoal do que na profissional?

Sim, muitas ferramentas que envolvem IA são usadas em nossa vida pessoal, vários aplicativos em nossos celulares, mas não no ambiente de trabalho de grande parte dos profissionais – em finanças, marketing, jornalismo, por exemplo. No mundo do trabalho, as pessoas ainda estão, em sua maioria, restritas aos softwares da antiga geração, a ferramentas do século XX.

4 | E como isso vai mudar?

Eu, como professor, penso que precisamos mudar o treinamento das novas gerações para que estejam cientes das novas ferramentas. Se eu as uso nas minhas pesquisas, por exemplo, por que não usá-las na sala de aula também? É o que tenho feito
nos últimos nove anos.

O que queremos é transferir o que já se sabe para as novas gerações, para que elas estejam equipadas com ferramentas do século XXI – afinal, serão gestores do século XXI, não do século XX.
5 | O que são desafios dessa nova era?

Temos de educar nossos ?lhos (e não temos tido sucesso nisso) quanto a saber que as coisas não são de graça. Se você não paga dinheiro por um aplicativo, mas cede seus dados, isso pode gerar consequências das quais os jovens talvez não tenham
noção. O preço pode ser mais alto do que as pessoas imaginam. E temos, ainda, de lidar com a questão ética. Se você não paga dinheiro por um aplicativo, mas cede seus dados, isso pode gerar consequências das quais os jovens talvez não tenham noção”

6 | Quais as principais questões relativas à ética?

Como pesquisador, ao trabalhar com dados gerados por humanos, eu preciso obter um certificado de ética (explicar o protocolo científico a ser seguido, anonimização ou pseudonimização dos dados, em que arquivos eles serão armazenados, se serão encriptados, etc). Eu não tenho certeza de que as empresas para as quais nós cedemos os dados fazem o mesmo. Muitas, eu imagino, nem devem pensar nesses termos. É extremamente importante que a próxima geração compreenda o que está fazendo e quais são os limites dentro disso. Não são desafios fáceis, porque há muitas pessoas com acesso a esse poder tecnológico, criando startups, etc. Isso pode ser bem bagunçado. Por isso, regulamentações são imprescindíveis – no Canadá, nós temos a Declaração de Montreal a respeito de Inteligência Artificial e Ética, que é um bom exemplo nesse sentido.

 
7 | Temos tido sucesso na educação das pessoas quanto às questões éticas?

Não, nós não temos feito um bom trabalho em educar as pessoas quanto às novas tecnologias. Ressalto que estamos ainda no começo disso tudo – 30 anos não são nada –, mas esse processo está acelerando desde 2012, por causa de novos algoritmos, então precisamos também acelerar nessa parte, pois a tecnologia está avançando de maneira exponencial.

8 | Uma das suas pesquisas foi sobre a crise de refugiados. O que se percebeu a partir da análise das informações das redes sociais?

Foi interessante estudar a crise dos refugiados nesse contexto, porque percebemos, ao analisar informações das redes sociais, que houve muitos sentimentos positivos, desconectados do que se via na TV e do que políticos comentavam. E isso porque em
uma mesa de debate, ainda que os políticos não extremistas dessem opiniões tranquilizantes, o nosso cérebro presta mais atenção às ameaças, às opiniões extremas, e o debate público foi capturado por essas dinâmicas, sendo que indivíduos, cidadãos, não estavam tão preocupados. Depois de ouvirem que deveriam estar, ficaram.

9 | Por que diz que estamos em um novo paradigma?

É a primeira vez que a humanidade tem acesso a essa força computacional, que pode compartilhar as mesmas linguagens computacionais e pode armazenar todos os dados que gera. Para finalizar com uma mensagem positiva, se conseguirmos lidar com as questões éticas, criar boas regulamentações, resolver a extrema polarização, nossos filhos vão viver em um mundo com excelentes ferramentas, que poderão ampliar a criatividade deles. Vão inventar, criar, resolver questões para as quais não temos respostas, hoje. Vai demorar um pouco, mas esse momento vai chegar.

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